domingo, 15 de novembro de 2009

Comer

A falta às vezes é tão grande que pode se tornar uma só; é quando minha fome orgânica mistura-se com meus outros desejos. Há então uma explosão que torna tudo um imenso vazio, a matéria e o espírito se misturam numa substância única que implora um preenchimento. Comida é nada. A vontade de comida permanece, mas o sistema nervoso não a percebe. O que se quer é muito maior, é vida pulsante, é amor que lateja em cada célula do corpo, é a energia metafísica que alimenta o corpo e a alma.

domingo, 27 de setembro de 2009

Cada vez mais perto do coração selvagem...


«O que nela se elevava não era a coragem, ela era substância apenas, menos do que humana, como poderia ser herói e desejar vencer as coisas? Não era mulher, ela existia e o que havia dentro dela eram movimentos erguendo-a sempre em transição. Talvez tivesse alguma vez modificado com sua força selva­gem o ar ao seu redor e ninguém nunca o perceberia, talvez tivesse inventado com sua respiração uma nova matéria e não o sabia, apenas sentia o que jamais sua pequena cabeça de mulher poderia compreender. Tropas de quentes pensamentos brotavam e alastra­vam-se pelo seu corpo assustado e o que neles va­lia é que encobriam um impulso vital, o que neles valia é que no instante mesmo de seu nascimento havia a substância cega e verdadeira criando-se, erguendo-se, salientando como uma bolha de ar a superfície da água, quase rompendo-a... Ela notou que ainda não adormecera, pensou que ainda haveria de estalar em fogo aberto. Que terminaria uma vez a longa gesta­ção da infância e de sua dolorosa imaturidade reben­taria seu próprio ser, enfim, enfim livre! Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, so­bretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mes­ma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! o que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fun­dido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreen­são de mim mesma em certos momentos brancos por­que basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.»

Perto do coração selvagem, Clarice Lispector.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O que é isso, companheiro?

Os companheiros não mais entendiam nada. Tinham a absoluta certeza de que havia algo de errado nas entranhas daquele velho conhecedor das esperanças e desesperanças do povo, das suas lamúrias e de suas razões, conformidades inocentes, de seus flagelos, mais ainda de seus cacoetes e dizeres... Bem pudera. Trabalhou em armazém como ninguém, passara por engraxate, "office-boy", operário, sindicalista e, agora, cargo só um pouco mais importante, presidente da República Federativa do Brasil.
Quando o assunto é o seu merecido reconhecimento por competência, num país de oportunidades vetadas, considerando-se todas as contradições deste capitalismo apenas aparentemente inoportuno, talvez seria ele o "Machado de Assis" do "novo" Brasil.
Digamos que pela classe A, B, C e D, com exceção da E, ele passou e permaneceu durante tempos consideráveis. Tudo isso faz-nos concluir que não se trata de um zé-qualquer da vida, que desconhece as peculiaridades de cada estrato da massa (da lasanha) brasileira, como muitos assim pensam.
Agora você deve-se perguntar (e, acredite, eu também) o que danado havia de errado com aquele homem, que não era qualquer um, havia passado por tantos caminhos pedregosos, tantos desencontros com o destino, mesmo que por fim com destino tão brilhante. Digamos que talvez nem sempre bem acompanhado (ACM e Sarney, por exemplo, nunca foram amiguinhos tão simpáticos aos "companheiros" do bom e velho Lula), assim, como um malabarista, fez todos os gostos (e criou também, pois mesmo discordando de tanta coisa a gente ainda simpatiza com o baixinho), sem deixar satisfações espatifarem no chão, para estar agora passando por maus bocados.
A fim de sabê-lo, a massa da Lasanha concluiu que não era um só Lula aquele(s). Separaram, então, um por um. Escolheram a versão 8o's e a versão "só-sei-que-nada-sei" ou, ainda, "Cirque du Soleil" do dito cujo.
Marcaram, com cada Lula, um encontro no ônibus 174, lá no Rio de Janeiro, "mearmo". Não apareceram no bat-dia, na bat-hora. Era melhor que fosse um encontro a dois (ou a um?), somente. Talvez eles só encontrariam-se assim, com uma ajudinha da massa.
Depois de horas e horas "enclausurados" e "sozinhos" naquele ônibus, depois de discussões e agressões verbais, a versão pós-moderna, cheia de seus paradoxos e contradições, meteu-lhe a mão no seu rosto. Sentido-se profundamente agredida, a versão 80's conteve-se, enrustida, para não acertar-lhe também seu rosto (mesmo assim,verdadeiramente PUTA DA VIDA), pois afinal seria um inadmissível ato de desacato para com o presidente, oras.
Antes somente público (a não ser pelo fato de ter provocado o encontro, o que já é grande coisa, pois eu mesma nunca a vi mexer-se sozinha), a massa da Lasanha começa a entrar no ônibus para apartar a briga, antes que aquilo tudo terminasse numa tragédia, feito o que aconteceu com o que entrou para a História, em 1954.
Então o sonho acabou. O final dessa estória eu quero ver, imagino que você também, ainda que talvez não seja possível para nós; para tentar, eu preciso voltar ao sono, assim como faz o Brasil, desde que nasceu, há mais de 500 anos atrás. Ô bichinho dorminhoco!

domingo, 12 de abril de 2009

diário de uma curiosa

Tem coisas na vida de que eu não preciso saber o porquê.
Não preciso saber por que aquela folha caiu exatamente no meu pé quando andava na rua, por que encontrei aquela flor linda, naquele lugar inusitado, no momento mais perfeito e ao mesmo tempo inesperado, por que um pedinte me desejou a bênção de Deus na parada de ônibus, quando na verdade achei que não ia gostar do fato de não ter uns trocados naquela hora.Por que alguém me soltou um sorriso e me rasgou outro, capaz de me derreter feito açúcar no café, no dia em que estava uma verdadeira pedra.
Ou mesmo por que uma pessoa me apareceu feito um susto. Como um presente que se ganha numa segunda-feira, que nem feriado nem aniversário é, uma linda escultura de porcelana que veio de longe, da Rússia ou da Índia, e ao chegar em minhas mãos...Cai no chão e termina. Vai-se no espaço, sem deixar seu constante e seguro esplendor na sala, durante tempos; mas deixando a cicatriz de um encanto repentino e singelo, ao mesmo tempo profundo, que parecia eterno, depois que chegou perto, bem perto, não tão o suficiente, ainda longe.
As coisas simplesmente acontecem. E a única coisa que elas deixam a gente perceber - que é segredo e sagrado- é a sensação e o sentimento que provocam na gente. Não preciso querer razões. Só queciso saber que senti, e vivi, ainda que bem não me tenha feito.

quinta-feira, 5 de março de 2009

doce

Mas é claro que as crianças choram quando batizadas!
O pecado é lei da vida.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Fugiu-me. Agora,instantâneo. O que me fez pegar pra mim um fio dessa imensa teia,pra jogar nela tudo o que me aflige. Mas tá aqui,e vai voltar. Mastigando,trabalhando,esperando a hora. E não vai sumir. No máximo,o tempo e a escrita o fará imperceptível